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terça-feira, 10 de agosto de 2010

Domingo foi dia dos pais.


Meu décimo sétimo dia dos pais junto do meu velho começou conturbado. Acordei cedo no domingo, de ressaca e exausta, enfrentei quilômetros de viajem pra chegar e te ouvir dizer que, por você, nem precisávamos ter ido. E o suéter que te levei de presente, você ao menos experimentou, foi embora sem dizer uma única palavra.
Talvez você não tenha percebido que tem uns dezessete anos que eu tento entrar no seu mundinho autista e arrancar de você um mísero elogiu, por mais medíocre que seja, ele nunca veio. Já se deu conta que, em todos estes anos, você só colocou suas mãos sujas em mim para me machucar? Não se lembra, por um acaso, de todas as marcas que deixou no meu corpo a cada surra que me deu? As que ficaram por dentro demoraram mais para cicatrizar, eu garanto.
Pai, por que tanta raiva contida dentro de você? Não entendo sequer uma palavra de todas as que profere, não sei como te fazer sorrir, não sei como te agradar, não sei mais o que fazer. E tem dezessete anos que tento reverter essa situação. Me dar casa, comida e tudo o que o seu dinheiro pode comprar não resolve o vazio imenso que existe dentro de mim, essa dor que dói no peito cada vez em que eu vejo outros pais e filhas é o frio da tua ausência, do seu status sempre ocupado.
Eu nunca conversei com você. Nunca consegui manter um diálogo civilizado por mais de cinco minutos e as raras expressões de afeto que você teve por mim na vida, não significam muito diante de todas as lágrimas que me fizeste derramar, com as mãos ou com as palavras.
Você me odeia por não ser igual a você, por ter a capacidade de amar um pouquinho mais, sorrir um pouquinho mais, ser um pouco mais flexível. Mas e aí dentro o que tem, pedra ou coração? Não sei se é ciume, mas você passou a me odiar um pouquinho mais quando me apaixonei pelo cara que você não queria, mas saiba que ele é melhor do que você, porque apesar de todas as mancadas, ele sempre teve a sensibilidade de me abraçar quando eu mais precisei.
Eu não entendo como você não percebe o quanto foi difícil pra mim conviver com alguém de quem eu morria de medo quando criança, mesmo tentando timidamente me aproximar, como um cachorrinho que chega perto do dono e coloca a cabeça embaixo do seu pé, numa tentativa desesperada de ganhar carinho. Você não tem noção do quanto foi desesperador pra mim, no auge dos meus nove anos saber que dentro de poucas horas, em uma manhã solitária, você estaria entrando numa sala de cirurgia de onde corria grande risco de não sair mais. Talvez todo o afeto, todo o carinho, todas as minhas tentativas tenham passado despercebidas através da grossa lente do seu óculos, mas quando você quase morreu, eu tive medo de te perder.
Não sei se algum dia você vai olhar pra trás e ver que eu não sou mais tão pequena para apanhar e nem tão grande para conseguir, finalmente, te ignorar como minha irmã faz, mas pai, só queria te dizer que até nos meus erros mais imperdoáveis, eu te amei a cada segundo da minha vida.

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